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Mudança de endereço
Os poemas que haviam pousado neste blog estão de mudança para um novo observatório, que fica no observatoriodeventos.blogspot.com. Alguns estão no meio do caminho, mas algumas coisas mais novas já estão por lá... Este aqui vai continuar, embora meio parado. Abraços, e sejam sempre bem vindos. Alexandre
Escrito por Alexandre às 13h54
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Contra o vento
Minha língua sonha com seus lábios, sente o perfume cujo gosto não conhece, salvo em delírios onde o desejo se perde entre memórias e esperanças de encontrar sob meus dedos o pulsar da sua pele e em frente aos olhos meus os seus a me guiar por sobre as águas que te inundam, tempestades de vento e ondas que revolvem meus caminhos. Rompe as velas do destino, meu seguir o seu farol.
e hoje o barco eu conduzo com meus remos sob a força de meus braços vou singrando contra o vento que me afasta dos seus sonhos e soterra o sentimento nas areias de um passado que sendo belo em seu tempo não desperta no presente no desejo dos seus lábios um encanto pelos meus.
Escrito por Alexandre às 01h01
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Teu olhar IV
Teu olhar desperta em mim a esperança de um desejo, a ilusão do tremor que, em minha pele, o teu beijo plantaria ao buscares em meus braços o encanto e a tortura que se escondem na promessa do entregar-se a um sentimento que traria dor tão certa quanto o prazer do poema de corpos que juntos teremos escrito.
Escrito por Alexandre às 00h54
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Para ser cantado em ritmo de samba
Morena dos olhos d’água Esconda esse riso de mim Pois se sua voz pede calma É um beijo que esse riso pede
Mas acontece que meus lábios, aos beijos roubados preferem, um beijo colhido maduro, entre lagos e flores de ipê.
O beijo que não quis a boca na palma se deixou guardar à espera de achar o desejo que seus olhos procuravam
E se por acaso o desejo teu olhar esquivo encontrar não deixe de dizer-me logo que madura está a fruta e espera por quem com cuidado a leve das mãos à boca.
Morena dos olhos d’água Esconda esse riso de mim Pois se sua voz pede calma É um beijo que esse riso pede
Escrito por Alexandre às 00h53
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Terra
Terra Tear Tecer Com fios de limo e musgo, o verdecer de veredas encobrindo pegadas que deixo por onde passar não passo. Serpentear entre capins e pedras, na terra queimada e fria de fim de julho.
Flores Scente A sempreviva dançando ao vento sua lua de estrelas brancas presas por espinho ao galho, preso pelo tronco ao chão... E o chão, preso pelo tempo ao mundo, nunca se esquece das gentes porque nunca de nós se apercebeu.
Melodias, Ecos de sentimentos mortos... Invento ouvir na brisa a música da terra, mas terra é muda... Quem canta são pássaros, mas o meu ouvir de suas vozes é uma música que está dentro de mim e não no mundo, esse espaço estranho e triste em que penso caminhar.
Caminho, a trilha é solidão em movimento, e os pés são as pontas do compasso com que meço o infinito, pra re-saber que ele se estende entre dois olhos e uma dor.
Nuvens. Mar nenhum espelha o azul do céu do cerrado nem a chuva imaginária que espera as tintas da primavera para pintar de amarelo as mangas, de vermelho os rios, de verde o pasto e um silêncio em mim.
Inverno de 2004

Escrito por Alexandre às 16h02
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A folha
A folha que, lançada ao vento,
corta o espaço em voltas trôpegas
para, vencendo o tempo,
retornar ao chão,
levada pela força com que os olhos
teus despertam-me na boca um
movimento incontrolado
rumo aos teus lábios e, então,
rasgando o abismo num salto
reduz a distância ao vazio
intransponível de dois corpos
que se enlaçam na esperança
de afastar do presente o fantasma
de um futuro que não terá sido.

Escrito por Alexandre às 16h01
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As cidades repetidas I
A cidade de Albiaris causa inevitável estranhamento aos visitantes, que nela costumam perceber apenas uma infindável repetição das poucas formas retas e brancas que compõem os seus edifícios. Além disso, o peculiar modo como que ela se dispõe em torno de eixos em vez de em volta de centros, as grandes avenidas que desenham seus traçados em modulações geométricas, em nada disso o estrangeiro encontra reflexos de sua terra natal.
Tal estranhamento se acentua porque muitos visitantes passam pela cidade com demasiada pressa e buscam abrangê-la toda como quem olha uma fotografia. Porém, tal como as notas de uma partitura tocadas em uníssono não formam uma sinfonia, tampouco esse instantâneo de Albiaris consegue lhe captar.
Aos poucos, porém, o estrangeiro atencioso começa a dar-se conta de que, assim como doze notas compõem infinitas melodias, as combinações dos elementos de Albiaris geram as mais variadas estruturas. Observadores mais sensíveis conseguem reparar na sutileza de certas sucessões, no equilíbrio harmonioso de algumas sobreposições inusitadas, no surgimento de pequenas notas dissonantes que dão novo sabor a harmonias gastas pelo uso.
Apenas alguns poucos, porém, conseguem perceber que a cidade, como a música, somente se revela com uma combinação adequada de tempo e dos silêncios, e que tudo muda caso se tente ler a partitura em andamentos diferentes.
Enquanto outras cidades se mostram pelos seus sons e cheiros, Albiaris se revela pelo seu silêncio, pela sua recusa aos excessos, por sua expressividade rigorosa e contida. Qualquer pequeno ruído impede o visitante de notar os tons dourados que anunciam a primavera. Qualquer perturbação desvia para baixo o olhar que deixa de ver que o azul profundo do céu compõe a cidade tal como o verde das folhas. Um piscar de olhos faz passar desapercebido a delicadeza dos ipês brancos que se preparam o ano inteiro para alguns dias de um florescer sutil e arrebatadoramente belo.
Albiaris, então, escapa sob os olhos do visitante porque ela somente se mostra no detalhe efêmero ou no conjunto duradouro e nenhum desses tempos faz parte do repertório do estrangeiro comum, que enxerga em Albiaris uma cidade sem alma por não saber ouvir os seus silêncios.

Escrito por Alexandre às 16h00
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Girassol
Quando ao céu envolve o manto da noite
Solitário eu vago pelos campos,
buscando a esperança que sei ilusão
e como a nada leva esta procura,
enquanto os pés caminham para frente
o olhar ser perde nas linhas do chão,
não por curvar-me ao peso da sombra,
o girassol de meu amor é que não deixa
por mais longe que se esconda seu desejo
de ter os olhos voltados aos teus.

Escrito por Alexandre às 16h00
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Verde
O perfume dos lírios me invade
rompendo sentidos a dentro
intenso como o sentimento
que irrompe coração a fora.
Como o perfume não cabe nas flores,
não pode guardar-se em meu corpo
o amor que inspiras em mim,
e quer espalhar-se no mundo
para colher no olhar sorrisos seus.

Escrito por Alexandre às 15h59
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Rio Preto em poesia
Lancei-me ao rio, cobri-me d’água,
e o eu que emergiu era diverso,
pois libertou-me a corrente dos vidros
que me ajustavam o mundo à retina.
Acostumado que estava eu a tais olhos,
a bruma dos contornos me estranhava
e ao fundo eu fui desencavar a vista
perdida entre areias, raízes e folhas mortas.
A esperança me pregava a peça aos cegos reservada:
sabidos os olhos idos além da curva,
no sítio do perder é que por eles
meus dedos tateavam a esmo e em vão.
Mas era tarde, como tarde sempre é para o que é sido,
e quando o siso superou a esperança,
uma antiga memória lembrou-me
de que o indefinido das coisas nunca deixou de ali estar,
embora escondido pelo encanto dos vidros.
Lembrei que as linhas são formas de ver
e não o modo de as coisas serem.
Como num mito grego ao contrário
retornei da clareza aos vultos,
composições de manchas misturadas,
figuras essenciais de minha geometria.

Escrito por Alexandre às 15h57
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Rio Preto em prosa
Lancei-me ao rio... cobriu-me a água translúcida que deixava ver as mãos, mas não os pés. Envolvido pelo frio acolhedor desse leito, deixei-me conduzir por seus braços, que me lavaram o corpo e tornaram diverso o eu que dali emergiu, pois a corrente libertou-me dos vidros que me ajustavam o mundo à retina.
Acostumado que estava eu a tais olhos, a bruma dos contornos me estranhava e ao fundo eu fui desencavar a vista, perdida entre areias, raízes e folhas mortas. O mergulho inútil era um rito fúnebre para um modo de ver que me escapava, mas isso eu não percebia, preso que estava na peça que a esperança prega aos cegos: sabidos os olhos idos além da curva, era no local do perder que por eles meus dedos tateavam a esmo e em vão.
Mas era tarde (como tarde sempre é para o que é sido...), e quando o siso superou a esperança, uma antiga memória lembrou-me de que o indefinido das coisas não cessou de ali estar, embora escondido pelos vidros encantados que me mostravam as coisas como os outros achavam que eu devia ver. Porém, no meu mundo, o sol filtrado pelos ramos nunca deixou de ser um enxame de vaga-lumes impressionistas.
Vivendo o mito da caverna ao contrário, redescobri que minha verdade não era a daquelas silhuetas delineadas como as folhas de um quadro de Rousseau, pois o natural de meus olhos era perceber o movimento das copas ao vento como um grande pulsar e não como a soma dos pequenos movimentos das linhas que não vejo. Outro talvez dissesse que as fronteiras se dissolvem ao olhar, mas somente poderia isso pensar quem visse o mundo a partir das fronteiras entre as coisas e não desde o lugar da sua ausência.
Há quem lute para encontrar os limites, mas os limites são uma forma de organizar as coisas que vemos e não um modo de as coisas serem. Alguma beleza talvez haja aí, pois o mundo é ilimitado para quem não vê nas coisas os limites que elas não têm porque são todas misturadas. E é por isso que o borrão, e não o triângulo, é a figura essencial da minha geometria.
II
Mas é preciso não fazer do descobrimento dos olhos um motivo para o isolamento, porque toda vista é pouca para um mundo tão vasto, e limitar-se a ver as coisas com os próprios olhos tem um certo quê de cegueira. Querendo ver, então, os contornos que estão nos mundos dos outros, pedi emprestados os olhos da amada, que carregava três pares deles.
Um, as janelas essenciais, que não se emprestam, embora possam ser compartilhados pela arte de mostrar com o corpo o que a alma enxerga. Outro, uma moldura escura, que reduz a agressividade das luzes e banha e converte as cores em variações de um tom de âmbar. O terceiro, uma moldura vermelha e oval de vidros transparentes, cujas distorções várias fazem com que os olhos primeiros vejam no mundo a imagem padrão.
Quis ela ceder-me os segundos e passei a enxergar tudo em sépia. Primeiro se estranha, mas depois se acostuma com essa estranha alteração de tons. Quem sabe não há gente que veja o mundo sempre assim? Mas, se até aos deuses é vedado entrar nos olhos dos outros para sabê-lo, não convém tirar conclusões precipitadas somente por serem elas mais belas. De todo modo, observar assim é ter o trabalho incessante de substituir as cores vistas pelas imaginadas, pois essas sim é que eram de verdade...
Porém, nem a tudo se adapta, pois ver a noite com esses olhos causou-me um profundo desconcerto. Até o fim não me acostumei a ver as estrelas transformadas em pequenas bolas alaranjadas e obscurecidas. Esses vidros fizeram das plêiades uma pequena bola de brilho escuro, mas sem eles elas não passavam de uma mancha branca no céu. Todavia, diverso mesmo era mirá-las com as duas lunetas emparelhadas que convertiam magicamente a nebulosa em constelação (mas cobravam pelo encanto o preço de esconder o resto do céu...).
O mais estranho, contudo, era usar a moldura padrão, pois com ela as plêiades apareciam quando se as fitava de forma oblíqua, mas se perdiam no escuro cada vez que um olhar direto as tentava perscrutar. Percebi então que elas eram estrelas femininas, o que aumentou meu prazer de as contemplar.
E o caminhar à noite combinando lunetas âmbar à luz amarelada da lanterna? Aí então tudo ficava vermelho como se visto em um sonho, um presente despido de realidade porque vivido como se fosse um movimento da memória. Durante essa caminhada noturna eu era acompanhado por um sentimento militar, estimulado pela visão das caneleiras que faziam dos sapatos coturnos, mas principalmente porque a missão de espionar animais noturnos, caminhando quase às cegas por veredas e campos, era já em si uma espécie de invasão de terras estrangeiras.
Estranhos modos de ver o mundo. Estranhos mundos construídos pela vista.
Escrito por Alexandre às 15h56
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III
Voltei para casa vendo a estrada pelos olhos emprestados, mas, nela chegando, pus-me à procura dos meus velhos vidros já fora de uso há anos. Velhas armações, que acompanharam os eus de outros tempos, carregadas de lembranças e nostalgia. O que será que eles hoje me poderiam mostrar?
Curioso ter que procurar os velhos olhos fazendo uso dos olhos emprestados, especialmente porque aqueles se esconderam em cantos tão obscuros que muita procura foi necessária para que eles se deixassem encontrar.
O primeiro que se mostrou foi uma velha armação quebrada, que me comoveu como um velho sapato de Van Gogh. Estropiada em um acidente hoje esquecido, encravados nela estavam os meus primeiros vidros de ver coisas através, que me vieram em época tardia e que justamente por isso foram capazes de me mostrar o meu primeiro amor, a minha adolescência, as amizades que até hoje cultivo. E foi atrás deles que cultivei os sonhos que me moldaram e as utopias que me moverão até que eu me dissolva definitivamente no infinito.
Vi-o em um relance e fechei a sua caixa, como criança que guarda um doce para saborear mais tarde. Sei que aquela caixa escondida em outra caixa, encerrada em outra ainda e guardada no maleiro, sei que ela guarda um sentimento quase sólido de melancolia e que contemplá-la é ver a minha juventude morta e reacender velhos sentimentos. Sua persistência é uma ameaça presente a minha estabilidade e por isso uma moldura quebrada se torna um tesouro incomensurável, uma espécie de lápide de sonhos mortos. Porém, como ela me servia para lembrar e não para ver, guardei-a com cuidado no armário e na memória.
Prosseguindo as buscas, encontrei uma velha haste de arame dourado e agudo, que me feria as orelhas e ameaçava constantemente furar-me a vista. Perigosa, mas completa, apesar de um pouco oxidada pelos anos. Observei-me ao espelho e achei graça do tamanho dos vidros, tão maiores que aqueles que o rio havia levado. Refletindo sobre o quanto o tempo nos muda o gosto, encantei-me com poder ver o mundo com olhos tão diversos.
Continuei a procura, mas em vão. Vasculhados todos os nichos da casa, cheguei a achar que não havia nada a encontrar, inclusive porque minha memória não atinava com a forma da moldura que buscava. Foi preciso que a amada, cujo sentido de encontro em muito ultrapassa o de que disponho, se pusesse no encalço dos vidros perdidos e os encontrasse em uma antiga cesta de chás, esconderijo poético e eficiente onde não sei como foi parar.
Olhos negros e pesados, que, por apertarem-me as têmporas com seu modo firme de agarrar, dificilmente o rio conseguiria me ter levado. A tinta preta descascada confere-lhe um ar de passado que o combina a meus anos. Fico feliz de ter escritos estas linhas olhando pelos vidros que me mostraram tantas vezes a amada que a eles escolheu entre tantos irmãos que acabaram entre o lixo e outras faces.
IV
Um vidro que da areia veio para à areia voltar. Olhos de âmbar que filtram o mundo com estranha luz, arames vermelhos e dourados que se entrelaçam em moldura. Velhas janelas pretas e quebradas, através das quais inventei o mundo em que vivo. Hastes delgadas e robustas, que por tanto tempo abraçaram minhas faces e por ainda mais tempo se esconderam no obscuro da memória. Passaram como se nunca tivessem estado, pois eram sempre através em sua transparente presença. Revê-los é ter a ilusão de recuperar perdidos modos de olhar cuja única persistência é na lembrança. Mas lembrar que é possível ver o mundo com outros olhos é contemplar o encanto do tempo, que tudo leva como um rio em correnteza.
Escrito por Alexandre às 15h56
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A farsa
Inventei de mim uma imagem e, encantado, convenci-me de que ela era eu. A outros mostrei tal figura, fazendo crer que eu era o retrato que de mim mesmo fazia. A mentira cresceu até que o próprio eu esquecesse a diferença entre ser e convencer-se. Mas veio então a tempestade, e frente às ondas a imagem dava ordens que eu me recusava a cumprir. E na distância criada entre ela e mim, um eu guardado na penumbra revoltou-se num tremor interno que tentava fazer ouvir seu silêncio, e o abalo tornou-se ele próprio uma tormenta que explodiu em luzes como o romper de um casulo. Mas esse eu novo era também figura apenas pintada por outra parte do eu que é se ignora. Enquanto o eu que se sabe não é, apenas finge. Não passa de farsa.

Escrito por Alexandre às 10h53
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Eu só queria te contar o céu com um beijo, Um sol vermelho e terno de fim de tarde, Um céu que não cabe em palavras... Mas teus olhos surdos deixaram morrer o dia com um grito silencioso a me escorrer pela face.
Escrito por Alexandre às 10h50
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Instruções pseudo-cortazarianas II

Instruções para embalsamar esperanças
Modele um desejo à imagem das esperanças mais improváveis que puder imaginar. Deixe que ele cresça e te preencha o dia com a expectativa sorridente de ver realizadas as imagens que tens na cabeça. Imaginará silhuetas indefinidas, claro, mais prefigurando sentimentos que situações, mas isso é normal porque a expectativa não é de fatos, mas das emoções que eles certamente vão desencadear. Um certamente imaginário, também claro seja, mas sentimentos são tão reais quando no mundo quanto na memória ou no imaginar... E quando a pele desse desejo encontrar suas paredes interiores e espalhar-se por todo o vazio que você tem em si, então saberá que por este sonho vale viver. A felicidade desta consciência, como o calor de línguas prestes a se tocarem, dilatará o desejo em pulsações ritmadas, que te pressionarão por dentro expulsando pelos poros tudo o que em si não está preso por raízes enlaçadas entre músculos e tendões. Do si que conhece talvez pouco restará, mas não faz mal, porque ninguém quer ter aquilo que ocupa em si o lugar alegria. As pulsações causam uma dor cortante, mas esse é um sofrer acompanhado de tanta alegria antecipada que quase deseja explodir para preencher o mundo inteiro com todo o seu sentimento. Mas esse é um falso desejo, porque quer mesmo é ser inteiro para viver completamente a felicidade imaginada. Certa hora, a pressão é tão grande que começa a desaguar no mundo pelos olhares e contorcer os músculos na forma de um sorriso constante. Comece, então, a flutuar, crendo que o amor eleva e esquecendo que cultivara dentro de si um balão: este vazio é que se ergue, e faz ver além nuvens um sol que para poucos brilha. Olhe, então, para baixo, e veja que a terra lhe recusa a esperança, sob o peso imenso da palavra não. O desejo sempre insistirá, mesmo perdido o seu porto e sem saber para onde ir. Quererá inflar-se, sem ter como, para morrer numa explosão de revolta. Mas depois murchará até tornar-se um saco frouxo jogado num canto de si. É quase inevitável: você o tomará nos braços e soprará sua boca em um esforço desesperado para enchê-lo novamente e preencher o vazio que ele deixou em seu lugar. Mas o vazio que te ergueu agora se torna ausência, e embora saiba que ele nunca voltará a envolver-te por dentro, sabe também que aquela alegre pulsação ainda será sentida por longos anos, como a fantasmagórica dor dos amputados.

Escrito por Alexandre às 10h46
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